PREMIÈRE VISION - AUTUMN/WINTER 27/28

worldfashion • 14/09/26, 15:48

Depois de anos em que imagem, velocidade e produção de conteúdo digital ganharam protagonismo na construção do desejo, a moda começa a voltar sua atenção para algo a experiência de sentir. Toque, textura, conforto, proteção e sensorialidade aparecem como elementos cada vez mais importantes no desenvolvimento de produtos e aproximam universos que, até pouco tempo, eram tratados de forma mais separada.

Essa foi uma das principais leituras de Symone Rech, especialista em negócios de moda e fundadora da New & Now, a partir da edição da Première Vision que, pela primeira vez, abriu espaço para o setor de cosméticos em uma iniciativa com a Cosmetic Valley.

“Moda e beleza estão se aproximando porque começam a construir desejo a partir dos mesmos elementos. Não basta mais que o produto tenha apenas uma boa aparência. Ele precisa criar uma sensação, seja no toque de um tecido, na temperatura da peça sobre o corpo ou na experiência de um produto de beleza”, afirma a especialista.

Na moda, esse movimento aparece em tecidos macios, superfícies sensoriais, materiais que oferecem proteção, conforto térmico e leveza. Na beleza, está presente em fórmulas mais táteis, experiências de cuidado e embalagens que buscam estabelecer uma relação mais consciente com os materiais.

A matéria volta ao centro do desejo

Essa mudança também está relacionada ao macrotema Living Matter, ou Matéria Viva, apresentado para a temporada de outono-inverno 2027/28, correspondente ao Inverno 28 no Brasil.

A direção coloca a matéria como protagonista na construção de valor. Cor e forma continuam relevantes, mas passam a dividir espaço com irregularidades, texturas, superfícies alteradas e sinais de transformação. Depois de um período marcado por imagens muito polidas e padronizadas, cresce o interesse pelo que transmite presença, individualidade e memória.

“Acredito que estamos entrando em uma fase em que o próximo luxo não estará somente naquilo que pode ser visto. Ele também estará naquilo que pode ser tocado, percebido e experimentado pelo corpo”, diz Symone.

Dentro dessa leitura, movimentos como Matter of Time reforçam o tempo, o uso e a permanência como atributos de valor. Tecidos desgastados, superfícies envelhecidas e materiais que mudam ao longo do uso deixam de ser percebidos necessariamente como imperfeições e passam a participar da narrativa do produto.

Já em Wild Matter, a natureza deixa de ser apenas referência estética para se tornar também processo de inovação. Pesquisas com micélio, algas, fermentação e biomateriais mostram uma aproximação entre ciência e sistemas vivos, enquanto a beleza também avança na combinação entre tecnologia, ingredientes e experiências conectadas ao natural.

O terceiro movimento, Matter of Ease, leva essa discussão para uma tecnologia mais discreta, voltada ao conforto e ao bem-estar. Tecidos que regulam temperatura, respiram, protegem ou entregam desempenho passam a ser incorporados a peças de aparência cotidiana, sem necessariamente carregar uma estética esportiva ou tecnológica.

“Existe uma mudança importante na maneira como a inovação está sendo apresentada. A tecnologia continua presente, mas deixa de ser apenas espetáculo e começa a funcionar de forma mais silenciosa, como um suporte para conforto, proteção e cuidado”, analisa Symone.

O físico ganha força diante da imagem perfeita

A multiplicação de imagens digitais e o avanço da inteligência artificial também ajudam a explicar essa busca por materialidade. Em um ambiente em que imagens impecáveis podem ser produzidas em grande volume e velocidade, características difíceis de reproduzir na tela ganham importância no mundo físico.

Texturas, irregularidades, superfícies lavadas e materiais que carregam sinais de transformação passam a oferecer algo que a experiência digital não consegue entregar integralmente.

Para o mercado brasileiro, a tendência pode abrir oportunidades especialmente relevantes. A relação com corpo, pele, movimento e beleza já ocupa espaço importante no comportamento de consumo no país, o que cria terreno para roupas mais táteis, materiais leves e protetores, superfícies sensoriais e produtos associados a conforto e bem-estar. A tradução, no entanto, precisa respeitar características locais, como clima, hábitos de consumo e posicionamento de preço.

“Não se trata de copiar aquilo que aparece na Europa, mas de compreender o comportamento por trás dessas informações. A busca por conforto, sensorialidade, identidade e bem-estar já está presente no consumidor brasileiro. A oportunidade está em transformar esses sinais em produtos que façam sentido para a nossa realidade”, conclui Symone.

ARTIGO - “A reinvenção do fast fashion na era da sustentabilidade”

worldfashion • 29/04/25, 16:27

Por Symone Rech*

As transformações necessárias e vão muito além do uso de tecidos orgânicos ou reciclagem de embalagens. Se o problema da moda fosse apenas a matéria-prima, a gente já teria resolvido. O problema real é o modelo de negócio baseado em volume, velocidade e descarte rápido. É preciso reinventar toda a lógica de produção, consumo e relacionamento com o cliente.

Entre os exemplos que ilustram essa virada de chave está a norte-americana Patagonia, frequentemente citada como um case pioneiro em moda sustentável. Desde 1996, quando adotou o algodão orgânico, a marca vem desafiando o senso comum. Sua jaqueta fleece feita de garrafas PET recicladas tornou-se um ícone, mas o verdadeiro ponto de inflexão veio em 2011 com a campanha “Don’t Buy This Jacket”, veiculada na Black Friday. A provocação — pedindo que consumidores reconsiderassem a necessidade de novas aquisições — gerou polêmica, mas impulsionou um aumento de 30% nas vendas no ano seguinte.

O que a Patagônia mostra é que sustentabilidade autêntica não espanta o consumidor, ela o atrai. Quando a marca alinha discurso e prática, constrói lealdade. Sustentabilidade não é um freio, é um novo motor de crescimento.

Uma das principais apostas para tornar a moda mais sustentável é o desenvolvimento de produtos inteligentes — peças que entregam mais valor com menor impacto e volume. A lógica é simples: em vez de estimular trocas constantes de guarda-roupa, oferecer roupas funcionais, duráveis e atemporais.

A japonesa Uniqlo é referência nesse modelo, com suas linhas Heattech e Airism, que ajustam a temperatura corporal de acordo com o clima. Essas tecnologias oferecem conforto térmico em diferentes estações, reduzindo a necessidade de múltiplas peças para o mesmo fim. É um exemplo clássico de produto funcional.

O consumidor precisa de menos roupas para se adaptar a diferentes temperaturas, o que reduz o consumo desnecessário.

Na mesma linha, marcas como Levi’s apostam em peças atemporais como pilar estratégico. O modelo 501, por exemplo, permanece praticamente inalterado há décadas e continua sendo best-seller. “A Levi’s construiu um império sobre um produto clássico. Toda marca deveria ter o seu ‘501’: um item que vende sempre, independente de modismo e garante previsibilidade financeira”, acrescenta.

Outra frente que ganha tração é a da circularidade. Marcas estão investindo em reparo, revenda, aluguel e até recarga de produtos. A britânica Selfridges criou o programa RE-SELFRIDGES, com metas ambiciosas: até 2030, 45% de suas transações devem vir de modelos circulares. A parceria com a startup SOJO — especializada em consertos — garantiu um espaço permanente de reparos dentro da loja. Além disso, clientes podem revender itens de luxo e receber crédito, alugar roupas e até recarregar embalagens de beleza.

É uma mudança de mentalidade e de negócio. Em vez de depender de vendas únicas e descartáveis, essas empresas estão apostando em serviços recorrentes, que fidelizam o cliente e reduzem o impacto ambiental.

Se a sustentabilidade ainda carrega o estigma de ser “careta”, marcas como a Osklen vêm desmentindo esse mito. Desde 1998, a grife brasileira alia design sofisticado a práticas sustentáveis. Por meio do projeto e-fabrics, utiliza materiais como couro de pirarucu, juta da Amazônia e algodão orgânico. A proposta é oferecer não apenas moda ética, mas também estética refinada e conexão com a natureza.

As pessoas não compram só porque é ecológico. Compram porque é bonito, funcional e desejável. A estética precisa andar junto com a ética.

Apesar das iniciativas promissoras, o alerta é que muitas marcas sustentáveis erram ao comunicar sustentabilidade como se todo o público já estivesse convencido.

As marcas falam como se todos os consumidores já estivessem na ‘maioria inicial’ da curva de difusão da inovação. Mas a maioria ainda não vê valor real nisso. A proposta é aplicar a lógica da Curva de Adoção da Inovação, de Everett Rogers, adaptada à moda.

Para os inovadores — cerca de 2,5% do mercado — a chave está em oferecer produtos disruptivos, com alta tecnologia e apelo exclusivo. A marca britânica Vollebak, por exemplo, vende peças feitas com cobre, grafeno ou madeira flexível.

Eles não vendem sustentabilidade. Vendem o futuro.

No grupo dos early adopters, consumidores influentes e ligados ao luxo buscam status e diferenciação. Marcas como Veja, Stella McCartney e a própria Patagonia conseguiram se posicionar nessa camada, oferecendo produtos que unem propósito e prestígio.

Já para a maioria inicial, composta por consumidores mainstream, o foco está na validação social. Aqui, o importante é mostrar que todo mundo já está fazendo. Criar normas sociais, facilitar o acesso e tornar o sustentável mais prático do que o convencional. A Allbirds é um bom exemplo. A marca vende tênis sustentáveis, mas seu principal argumento é o conforto. Já H&M e Zara inseriram coleções ecológicas como parte das opções regulares, sem criar uma seção isolada para “moda verde”.

O futuro é inteligente — e desejável

No fim das contas, o caminho para a sustentabilidade não será pavimentado apenas com boas intenções ou campanhas pontuais. Ele exige uma transformação profunda na maneira como a indústria cria, vende e se relaciona com o consumidor.

O futuro da moda sustentável não depende de convencer as pessoas a comprar menos. Ele depende de criar produtos tão bons, tão icônicos e tão desejáveis que as pessoas naturalmente queiram comprar — e manter. As marcas que vão crescer não são as que produzem mais, mas as que constroem mais valor.

*Symone Rech é especialista em negócios de moda e fundadora da New & Now uma plataforma de conteúdo e pesquisa de moda que conecta o mercado brasileiro às tendências internacionais com foco em resultados comerciais, a ferramenta transforma tendências globais em coleções lucrativas para pequenos e médios empreendedores, oferecendo análises personalizadas, guias estratégicos e acesso a pesquisas realizadas em capitais da moda como Paris, Londres e Milão.