ARTIGO - ISONOMIA PARA PRODUZIR, COMPETIR E CRESCER

worldfashion • 30/09/26, 15:09

Por Fernando Valente Pimentel*

O desenvolvimento industrial não pode ser uma agenda circunstancial, condicionada às urgências do momento ou limitada à duração de um mandato. Precisa ser tratado como política de Estado, com visão de longo prazo, objetivos claros, instrumentos estáveis e continuidade suficiente para oferecer aos empreendedores a confiança necessária para investir, inovar, produzir e gerar empregos no Brasil.

No centro dessa agenda deve estar uma palavra essencial: isonomia, pois é imprescindível conferir tratamento igual e condições equilibradas de competição a todos os que disputam os mercados. Não se reivindicam privilégios ou subsídios injustificados à produção doméstica, mas também não se pode permitir que produtos estrangeiros ingressem no mercado brasileiro beneficiados por subsídios, dumping, subfaturamento, fraudes, triangulações, diferenças tributárias ou pelo descumprimento das regras aplicadas a quem produz no País.

Concorrência é saudável e necessária. Porém, somente existe verdadeira concorrência quando todos disputam o mercado sob regras equivalentes. Hoje, essa isonomia não existe.

Quem produz no Brasil convive com custos financeiros elevados, tarifas, tributos, encargos incidentes sobre o trabalho formal, complexidade regulatória, burocracia, insegurança jurídica e deficiências de infraestrutura e logística. Ao mesmo tempo, enfrenta produtos importados que, em muitos casos, chegam ao mercado brasileiro favorecidos por subsídios concedidos em seus países de origem, práticas desleais de comércio ou brechas tributárias e regulatórias — especialmente nas operações realizadas por plataformas digitais internacionais.

O resultado é uma competição desequilibrada: exige-se muito de quem produz, investe e emprega no Brasil, enquanto nem sempre se cobra do produto importado o cumprimento de condições equivalentes.

A cadeia têxtil e de confecção brasileira é um bom exemplo dessa realidade. Trata-se de uma atividade ampla e diversificada, que reúne desde a produção de fibras e matérias-primas até a indústria têxtil, a confecção, a moda e sua conexão com o varejo. É uma cadeia marcada pela presença de milhares de pequenas e médias empresas, pela elevada intensidade de mão de obra e pela grande capilaridade territorial.

Seus desafios são setoriais, mas refletem problemas horizontais enfrentados por grande parte da indústria brasileira. Por isso, uma agenda para o seu fortalecimento também pode contribuir para tornar toda a base produtiva nacional mais competitiva.

O primeiro objetivo deve ser a equalização das condições de competição.

Isso exige reduzir estruturalmente os custos e as incertezas que penalizam quem produz e emprega no Brasil. Precisamos avançar na construção de um ambiente com custo de capital competitivo, segurança jurídica e regulatória, simplificação tributária, infraestrutura e logística eficientes, energia a preços adequados, menos burocracia e maior previsibilidade para os investimentos.

Para setores intensivos em mão de obra, como o têxtil e de confecção, é igualmente indispensável enfrentar o elevado custo do trabalho formal. Deve-se buscar, por meio do diálogo entre empresas, trabalhadores e poder público, soluções equilibradas que estimulem a contratação, reduzam a distância entre o custo suportado pelas empresas e a remuneração efetivamente recebida pelos trabalhadores, promovam a qualificação profissional e preservem direitos e proteção social.

A modernização das relações de trabalho deve valorizar a negociação coletiva, reconhecer as diferentes realidades setoriais e regionais e proporcionar segurança jurídica para empresas e trabalhadores.

Equalizar a competição também significa assegurar tratamento tributário e regulatório equivalente entre o produto nacional e o importado, independentemente de ele ingressar no País pelos canais convencionais ou por plataformas digitais. Não se trata de pedir proteção contra a concorrência, mas proteção à concorrência.

Uma vez estabelecida essa base, o segundo objetivo é ampliar os recursos para modernização e produtividade.

A indústria atravessa uma transformação acelerada, impulsionada pela automação, digitalização, inteligência artificial, eficiência energética e adoção de novos modelos produtivos. Para acompanhar esse movimento, o Brasil precisa oferecer crédito competitivo e de longo prazo para empresas dos diferentes portes e elos das cadeias produtivas.

Modernizar não significa apenas adquirir máquinas. Significa incorporar conhecimento, inovar em produtos e processos, qualificar pessoas, desenvolver novas competências e preparar empresas e trabalhadores para as transformações do mundo da produção e do trabalho.

O terceiro objetivo é promover uma expansão mais vigorosa da presença brasileira no exterior.

Defender a produção nacional não significa escolher o isolamento. O País precisa se integrar mais e melhor à economia mundial, por meio da abertura de mercados, de acordos comerciais equilibrados, da redução de barreiras às exportações, da promoção comercial, de instrumentos de financiamento e garantias e do apoio à internacionalização das empresas.

No caso da cadeia têxtil e de confecção, temos uma estrutura produtiva completa, matérias-primas, criatividade, moda, design e atributos socioambientais que podem ser transformados em vantagens competitivas. Uma inserção internacional mais ativa permitirá gerar exportações, divisas, escala produtiva, investimentos e maior presença dos produtos e das marcas brasileiras no mundo.

O quarto objetivo é assegurar uma defesa comercial ágil, técnica e eficiente.

O Brasil não deve se fechar às importações, mas também não pode assistir passivamente à entrada de produtos resultantes de dumping, subsídios, triangulação, subfaturamento, fraudes ou surtos de importação capazes de desorganizar setores produtivos e eliminar empregos.

Os instrumentos de defesa comercial precisam acompanhar a velocidade das transformações do comércio mundial. Uma medida que chega depois de empresas terem encerrado suas atividades e trabalhadores terem perdido seus empregos pode ser tecnicamente correta, mas economicamente tardia.

Defesa comercial não é sinônimo de protecionismo. É um mecanismo legítimo para restaurar a isonomia quando práticas desleais ou movimentos anormais de importação distorcem a concorrência.

O quinto objetivo é combater com firmeza a informalidade, a ilegalidade e a concorrência desleal.

Contrabando, descaminho, pirataria, falsificação, sonegação, subfaturamento e fraudes comerciais e aduaneiras retiram espaço das empresas que cumprem suas obrigações, prejudicam trabalhadores, reduzem a arrecadação e colocam o consumidor em risco.

Quem paga impostos, cumpre as normas, respeita o meio ambiente, emprega formalmente e investe no Brasil não pode competir em desvantagem com quem atua à margem das regras, dentro ou fora do País.

A isonomia, portanto, deve operar em todas as direções: entre empresas nacionais, entre produtos nacionais e importados e entre os diferentes canais de comercialização. As mesmas regras precisam valer para todos.

Esses cinco objetivos — equalização das condições de competição, modernização, expansão internacional, defesa comercial e combate à ilegalidade — não constituem apenas uma relação de reivindicações. Representam uma proposta de compromisso entre a cadeia produtiva e o Brasil.

Se o País oferecer condições adequadas para produzir, empregar, investir, inovar e competir, a cadeia têxtil e de confecção poderá responder com mais investimentos, produção, produtividade, empregos formais e qualificados, exportações, renda e desenvolvimento regional.

Para isso, é indispensável assegurar previsibilidade.

Investimentos industriais exigem planejamento, recursos expressivos e prazos prolongados de maturação. Uma fábrica não é construída, transferida, modernizada ou ampliada de um dia para o outro. Quando políticas públicas e regras mudam constantemente, investimentos são adiados, reduzidos ou direcionados para outros países.

O Brasil precisa estabelecer políticas de Estado para o desenvolvimento industrial que ultrapassem governos e ciclos eleitorais. Isso não significa congelar escolhas ou impedir aperfeiçoamentos, mas assegurar coerência, estabilidade e continuidade às diretrizes fundamentais do desenvolvimento produtivo.

A indústria brasileira não busca privilégios. Busca isonomia: condições equilibradas para competir e um ambiente que valorize quem produz, investe, inova e gera empregos no País.

Oferecer essas condições não representa uma concessão à indústria. Representa uma escolha pelo desenvolvimento do Brasil.

*Fernando Valente Pimentel

Diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção – Abit

ARTIGO - Da passarela às ruas: como a moda revela a história de um país?

worldfashion • 28/09/26, 10:42

Por Cristina Seixas*

Já dizia o escritor francês Anatole France (1844-1924): “Se eu pudesse escolher apenas um livro entre as publicações impressas cem anos após a minha morte, sabe por qual optaria? Eu escolheria simplesmente uma revista de moda, na qual eu poderia ver como as mulheres estarão vestidas um século após minha partida. E estas roupas me falariam mais sobre a humanidade futura do que filósofos, romancistas, profetas e intelectuais”.

Moda como símbolo de comunicação

O processo de criação na moda passa por transformações, muitas vezes por influência do contexto cultural, histórico e ambiental, cujos valores e significados se revelam na interpretação de sua realidade. Assim, é possível definir a moda como a expressão do momento. Existem determinadas características de estilo que sobressaem e expressam manifestações culturais, tornando a moda um símbolo de comunicação de massa, cujas formas, cores e texturas “contam” o momento histórico social de um país.

Vejamos por exemplo a moda feminina das décadas de 1940 e 1950 na Europa, mais especificamente na França, onde pode-se notar claramente o discurso de cada uma, inserida em seu contexto. 1950 reflete a reação à rigidez da estrutura do vestuário feminino dos anos 1940 e as grandes limitações à moda parisiense, criada sob forte influência das linhas militares e do vestuário masculino, com poucas cores, sem ornamentações, ombros armados e profusão de bolsos e de botões. As saias encurtaram, devido à economia de tecido, e os looks eram complementados por sapatos abotinados e sandálias com plataforma de cortiça. Era o reflexo do rigor das leis protecionistas, que determinavam até a metragem do tecido a ser utilizada. Os países envolvidos no conflito conviveram com o sentimento de despojamento e de simplicidade.

Com o fim da guerra, mais precisamente em 1947, aconteceu uma grande reviravolta no mundo fashion, quando a Dior apresentou sua primeira coleção de alta costura, a Ligne Corolle - rebatizada de New Look por Carmel Snow, pela editora de moda da revista Harper’s Bazaar - com saias amplas de cintura fina e corpetes estruturados. Os modelos chegavam a gastar vinte metros ou mais de tecido para a roda da saia, a exemplo do modelo Dioríssimo, complementados por sapatos altos de salto “agulha” e enormes chapéus. Era uma nova silhueta, em que a moda expressava feminilidade e elegância e que, em contraponto à fase anterior, exibia o reflorescimento da indústria têxtil e das pequenas empresas de acessórios.

Linguagem da moda

A narrativa fashion é um conjunto de signos que envolve do conceito à construção estética e exibe um discurso implícito de um momento, influenciado, por exemplo, por um contexto social, como o comportamento de consumo, as crises ou novos movimentos sociais, e que se reflete no discurso visual.

Por exemplo, um desfile pós-pandemia pode exibir conforto e liberdade, por meio de formas e de tecidos, com a silhueta mais ampla e a modelagem mais fluida. As formas, os materiais e as cores dos modelos podem expressar e/ou questionar padrões corporais e estéticos, tornando-se o espelho de seu tempo.

Paris, hoje

Em uma rápida análise da moda em Paris, hoje, nota-se a valorização do corpo, unindo simplicidade visual e respeito à silhueta, com conforto e movimento natural, e os elementos que se destacam são a cintura marcada (uso do peplum), texturas ricas, como o couro, em peças principais do look, e os bordados delicados em substituição às estampas.

Realça o “feito à mão”, com técnicas artesanais, em contraponto ao consumo rápido anterior. A moda busca menos “choque” visual e mais pureza nas formas, definidas por modelagens e tecidos que dão o tom natural ao caminhar. Percebe-se o cansaço aos excessos, com a busca de uma estética mais limpa, mais natural, por meio de looks mais sóbrios e duradouros, contrapondo a prática do descarte. Enfim, a moda valoriza o trabalho artesanal e a origem das peças e sinaliza um retorno ao natural e ao chique.

Futuro sustentável

Uma medida essencial para enfrentar esse cenário seria incentivar o slow fashion, com roupas de melhor qualidade e maior vida útil, desenvolvidas para proporcionar conforto e bem-estar. Também é necessário promover e viabilizar peças recicláveis, eliminar substâncias tóxicas da fabricação de tecidos, adotar corantes naturais e implementar outras práticas que permitam continuar criando sem deixar de priorizar a preservação e, idealmente, a recuperação ambiental.

*Cristina Seixas: jornalista, tradutora, produtora de eventos de moda, estilista, escritora e mestre em Design pela PUC-Rio. Com mais de 40 anos de experiência, idealizou desfiles, produziu eventos em instituições como o Museu Histórico Nacional, além de ter sido professora do Curso de Bacharelado em Design – Habilitação Moda e de pós-graduação em Design de Moda e Acessórios de Moda do SENAI CETIQT, bem como lecionou na PUC-Rio, na UERJ e na UCAM. Participou da tradução de livros como “História da cozinha e da gastronomia francesa”, de Patrick Rambourg (Editora Cassará) e “Seu futuro nas linhas da mão”, de René Butler (Editora Record). Atuou na revisão de obras, entre as quais “Uma breve história do racismo”, de Jacques d’Adesky (Editora Cassará) e “Os sabores e os saberes de Danusia Barbara (Editora Cassará). Como escritora, publicou “Casa Canadá: a questão da cópia e da interpretação na produção de moda na década de 1950” (Editora Cassará, 2015), além de “Estética da moda, Styling & Produção”, este em parceria com a jornalista Lu Catoira (2021) e “Rabena Karib: jornada entre e o deserto e o mar” (2025), ambos pela Edições Cândido.

ARTIGO - A ilusão da eficiência e a verdadeira revolução criativa na era da IA

worldfashion • 23/09/26, 10:00

Por Eduardo Schüler*

A gritaria sobre a inteligência artificial substituir os criativos no marketing e na publicidade revela mais sobre o estado atual da nossa indústria do que sobre a capacidade dos algoritmos. O medo generalizado de ser superado por uma linha de comando nasce da confusão histórica entre criar e executar. Durante décadas, o mercado remunerou a capacidade técnica de operacionalizar ideias, confundindo o manuseio de softwares com a construção de conceito. O que a inteligência artificial faz agora não é exterminar a criatividade humana, mas retirar o disfarce de quem apenas reproduzia processos, estabelecendo um divisor de águas definitivo entre o mero executor de tarefas e o verdadeiro profissional de visão estratégica.

Não há como ignorar a aceleração desse processo: o uso de ferramentas generativas na comunicação mais do que triplicou nos últimos dois anos, impulsionado por ganhos inquestionáveis de produtividade e redução de custos. Contudo, essa democratização técnica trouxe consigo um paradoxo perigoso. Quando todas as agências e marcas utilizam a mesma infraestrutura tecnológica e consomem as mesmas referências algorítmicas, a estética tende à padronização e o conteúdo à mediocridade. A abundância de execução barata inflacionou o mercado de imagens impecáveis, porém vazias, tornando a diferenciação uma conquista dependente, mais do que nunca, da substância conceitual do pensamento humano.

Essa armadilha da homogeneização já possui comprovação empírica. Uma meta-análise recente abrangendo mais de oito mil participantes demonstrou que, embora a colaboração com ferramentas de inteligência artificial eleve a média do desempenho criativo individual, ela reduz drasticamente a diversidade do conjunto final de ideias. A tecnologia funciona como um grande equalizador que eleva o sarrafo básico, mas achata os picos de originalidade. Se deixarmos o algoritmo guiar o processo criativo, terminaremos em um mar de mesmice visual e narrativa, onde nenhuma marca consegue construir identidade sólida ou gerar conversas culturais relevantes.

A saída desse labirinto exige resgatar o valor de atributos intrinsecamente humanos que nenhuma máquina é capaz de simular: repertório cultural, direção de arte rigorosa, sensibilidade interpessoal, storytelling autêntico e capacidade crítica de julgamento. A máquina pode gerar mil variações visuais em segundos, mas apenas o olhar humano educado sabe identificar qual delas carrega a tensão dramática ou a verdade de marca necessária para impactar o público. O verdadeiro trabalho criativo não termina no prompt; ele começa no momento posterior a ele, na curadoria minuciosa que transforma saídas sintéticas em ativos de marca com alma e contexto.

Um caso emblemático dessa dinâmica foi a campanha “A.I. Ketchup”, da Heinz. Em vez de simplesmente usar a inteligência artificial para baratear a produção de um anúncio, a marca usou a tecnologia como evidência viva do seu próprio posicionamento. Ao pedir para a máquina desenhar “ketchup”, os resultados geravam invariavelmente garrafas que remetiam ao design clássico da Heinz, provando que até na memória coletiva codificada nos modelos de linguagem, a marca é o sinônimo da categoria. O brilho da campanha não esteve no software utilizado, mas na sacada conceitual de transformar o viés do algoritmo em uma declaração de força cultural.

Para navegar nessa nova fase sem ceder à pasteurização criativa, as lideranças precisam adotar uma disciplina rigorosa. O processo deve sempre começar pela estratégia e pelo entendimento do negócio, jamais pela obsessão de testar o prompt da moda. O DNA e os códigos visuais da marca devem atuar como a única âncora inegociável, enquanto a exploração de múltiplas rotas conceituais deve preceder qualquer decisão final. Além disso, o investimento contínuo na ampliação do repertório das equipes, por meio da arte, literatura, cinema e vivência humana real, torna-se um imperativo estratégico, garantindo que a curadoria final permaneça sob o controle restrito de quem entende de gente.

A IA é um motor extraordinário de escala e eficiência, mas quem decide para onde o carro vai, continua sendo a mente humana

*Eduardo Schüler é CEO e cofundador da TEOS, especialista em campanhas e conteúdos hiper-realistas produzidos com inteligência artificial para o mercado de moda. Atua há mais de uma década com estratégia, marketing e inovação, pesquisando e aplicando novos modelos de produção criativa que combinam IA, direção humana, eficiência e escala.

ARTIGO - O Brasil que ainda produz tem endereço em Santa Catarina

worldfashion • 14/07/26, 09:59

Por Edson Augusto Schlogl*

Os números confirmam o que se sente no chão de fábrica. Em Santa Catarina, a indústria emprega 934,3 mil pessoas, o equivalente a mais de um terço de todos os trabalhadores do estado, segundo o Relatório Anual de 2025 da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC). A indústria de transformação responde sozinha por cerca de 24% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual, enquanto a média nacional fica em torno de 10%. São quase um milhão de catarinenses que vivem direta e diariamente da atividade industrial, sustentando famílias e movimentando cidades inteiras que cresceram à sombra das fábricas.

Dentro desse cenário, o setor têxtil ocupa um lugar de honra. Ele é o maior empregador industrial do estado e coloca Santa Catarina como líder nacional na produção de vestuário, respondendo por mais de um quarto de tudo o que o Brasil produz nesse segmento, de acordo com levantamentos da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Cidades como Indaial, onde a Incofios tem sua sede, fazem parte de um polo têxtil que é referência para o país inteiro, um ecossistema construído ao longo de décadas com trabalho, conhecimento técnico e muita persistência.

É nesse contexto que enxergo o papel da Incofios e de tantas outras empresas que escolheram continuar produzindo aqui. Quando decidimos manter a produção de fios cem por cento algodão em solo catarinense, não estamos apenas tomando uma decisão econômica. Estamos afirmando uma posição: a de que o Brasil é capaz de produzir com qualidade, com tecnologia e com responsabilidade. Cada fio que sai de nossas unidades carrega não só o algodão, mas o trabalho de pessoas que acreditam no que fazem e o orgulho de pertencer a uma cadeia produtiva genuinamente nacional.

Não ignoro os desafios. Produzir no Brasil exige enfrentar uma carga tributária pesada, um custo logístico elevado e a forte concorrência de produtos importados, muitas vezes vendidos a preços com os quais a indústria nacional não consegue competir em condições justas. Manter as máquinas funcionando, nesse ambiente, é um ato diário de resiliência. Mas é justamente por isso que vale a pena falar com orgulho de quem permanece, investe e gera empregos em vez de simplesmente terceirizar tudo lá fora.

Acredito que reconhecer e valorizar o Brasil que ainda produz é mais do que um discurso, é uma escolha estratégica para o futuro do país. Uma nação que abre mão de sua indústria abre mão também de sua autonomia, de seus empregos qualificados e de sua capacidade de inovar. Santa Catarina mostra, todos os dias, que existe um caminho diferente. E enquanto houver fábricas acesas, pessoas dispostas a trabalhar e empresas dispostas a investir, esse Brasil que produz seguirá vivo, forte e com muito a oferecer. Na Incofios, temos orgulho de fazer parte dessa história e de ajudar a escrever os próximos capítulos dela.

*Edson Augusto Schlogl é diretor da Incofios desde 2023. Com mais de 15 anos de experiência na área administrativa, industrial e comercial.

Artigo - Varejo de moda está vendendo mais e lucrando menos

worldfashion • 02/06/26, 11:38

Por Chrystian Scanferla, Head de Negócios do IRRAH Tech

Ao longo dos anos, acompanhando operações e conversando com empresários, percebi um padrão que se repete: o problema raramente começa na venda. Ele começa antes, na gestão. Produção desalinhada, compra mal dimensionada, estoque parado, margem corroída. O cliente vê a vitrine. O empresário convive com a planilha.

Os exemplos estão aí, e não são poucos. A Forever 21 entrou em falência nos Estados Unidos entre 2019 e 2020, após um ciclo de expansão sem sustentação operacional. A Select Fashion encerrou dezenas de lojas no Reino Unido depois de acumular prejuízos. A United Colors of Benetton, que por décadas construiu marca global, reduziu centenas de unidades para conter perdas que ultrapassaram centenas de milhões de euros.

Esses movimentos não são isolados e revelam um ponto estrutural: vender mais não resolve quando a operação não acompanha.

Existe hoje um paradoxo. O consumo continua girando, o fluxo nas lojas físicas responde. O e-commerce amplia alcance e, ainda assim, a rentabilidade não acompanha o mesmo ritmo. Na prática, são empresas que trabalham mais para ganhar menos.

Em eventos e conversas com o mercado, percebe-se que não existe mais operação de varejo sem dados estruturados. A NRF Retail’s Big Show consolidou isso de forma direta: dados não são mais suporte, e sim infraestrutura.

Eu passei a tratar dados como energia operacional. Eles não aparecem na vitrine, mas sustentam tudo. Sem eles, a decisão vira tentativa; com eles, vira gestão.

Na prática, isso muda o jogo. Deixar de comprar por “feeling” e passar a comprar por histórico. Parar de reagir à sobra de estoque e começar a prever demanda. Trocar desconto emergencial por estratégia de margem. Parece básico, mas não é o que predomina.

Soluções, hoje, entram exatamente nesse ponto: organizar o que já existe dentro da operação e transformar em leitura. O impacto não está no discurso tecnológico, mas na execução. Um ERP específico para moda resolve um problema que muita empresa ainda tenta contornar manualmente, com grade, cor, tamanho, reposição, giro. Quando isso não está sob controle, o restante da operação vira consequência.

Com integração à retaguarda, fornecedores e até oficinas, a operação deixa de ser fragmentada. E, quando deixa de ser fragmentada, fica previsível. Isso muda completamente a forma de trabalhar.

Eu vejo isso com mais clareza nos períodos de maior pressão, como datas promocionais. Quando não há controle, a empresa entra em campanha no escuro: compra demais, erra mix, liquida margem. Quando há estrutura, a campanha deixa de ser aposta. Passa a ser execução.

Menos ruptura, menos excesso de estoque, menos dependência de desconto. Mais conversão, com margem preservada.

O que sustenta o resultado não é o pico de venda, é o que acontece antes dele, no bastidor. É o dado organizado, a leitura correta, a decisão tomada no tempo certo.

Porque, no varejo de moda, quem enxerga antes decide melhor. E quem decide melhor não depende do acaso para crescer.

SOBRE A IRRAH TECH - é um ecossistema de empresas unidas por um propósito comum: gerar valor real por meio da excelência operacional, da inovação constante e do compromisso com resultados duradouros. Atuamos para transformar nossos clientes em verdadeiros fãs, construindo relevância e impacto com base em nossos valores corporativos.

ARTIGO - A urgência da sensatez

worldfashion • 17/04/26, 09:41

Por Luiz Arthur Pacheco*

A discussão em torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 8/25), que prevê o fim da escala 6×1 e a implementação de uma jornada de 36 horas semanais sem redução salarial, atingiu o ápice do debate público em 2026.

Trata-se de um tema que desperta paixões e mobiliza anseios legítimos da sociedade brasileira, como a busca por saúde mental e maior convívio familiar. No entanto, a magnitude dessa transformação nas relações de trabalho exige que a análise técnica se sobreponha à retórica passional, especialmente em um ano marcado por processos eleitorais.

Representado pelo Sinditêxtil-SP e pela Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), esse setor produtivo tem defendido que a modernização da jornada de trabalho deve ser pautada pela racionalidade econômica.

Recentemente, o Sindicato foi signatário de um manifesto juntamente com a Abit e outras 172 instituições destacando a necessidade de equilibrar o bem-estar social com a produtividade e a competitividade do país. O receio é que uma mudança abrupta e imposta por decreto possa asfixiar empresas, elevar custos operacionais e, em última instância, prejudicar o próprio trabalhador através da precarização do emprego e do aumento da informalidade.

Um dos pontos mais críticos dessa discussão é o seu timing. No atual cenário de 2026, com a proximidade das eleições, o debate sobre a jornada de trabalho corre o risco iminente de ser contaminado pelo oportunismo político e por discursos de caráter populista. Reformas estruturais que impactam o Produto Interno Bruto (PIB) e a sustentabilidade de milhares de empresas não podem ser decididas sob o crivo de promessas eleitorais que visam ganhos de curto prazo em detrimento da estabilidade econômica futura.

Por essa razão, defende-se que a profundidade deste debate seja preservada e que o foco legislativo seja deslocado para 2027. Adiar a conclusão dessa pauta para o próximo ano é uma medida de prudência que permitiria um ambiente político mais sereno, livre das pressões típicas de períodos de votação. Somente fora do calor das urnas será possível construir uma transição gradual e segura, fundamentada em dados reais de produtividade e não em conveniências partidárias.

A indústria têxtil paulista, que já enfrenta desafios produtivos severos e convive com taxas de juros elevadas, não possui margem para erros. Estudos e consultas realizadas com empresas associadas indicam que a redução da jornada sem a correspondente redução de salário aumentaria drasticamente os custos de produção, o que inevitavelmente seria repassado ao consumidor final, encarecendo fretes e insumos básicos. Sem um ganho de eficiência técnica ou automação que compense a redução de horas, o Brasil corre o risco de perder ainda mais competitividade no mercado global.

A modernização é um conceito que o setor têxtil abraça, mas ela deve vir acompanhada de segurança jurídica e diálogo franco. O país precisa de soluções que integrem a inovação tecnológica à valorização do capital humano, sem ignorar a matemática financeira que sustenta a atividade industrial. A discussão sobre a escala 5×2 ou a jornada de quatro dias deve ser o desfecho de um processo maduro de negociação coletiva e estudos setoriais, e não uma imposição legislativa apressada.

Portanto, a responsabilidade deve ser a tônica deste momento. É imperativo que as lideranças políticas e a sociedade civil compreendam que o futuro do trabalho no Brasil é importante demais para ser sacrificado no altar do populismo. O amadurecimento técnico do tema no próximo ano, em um ambiente desprovido de cunho eleitoral, é o único caminho para garantir que o avanço social pretendido não se transforme, ironicamente, em um retrocesso econômico para o Estado de São Paulo e para toda a nação.

*Luiz Arthur Pacheco é presidente do Sinditêxtil-SP

ARTIGO - Fim do hype: por que o varejo entrou na “era da execução”?

worldfashion • 19/02/26, 11:48

Por Tailan Oliveira*

Durante anos, as conferências de varejo pareciam roteiros de ficção científica. Nesses encontros, falava-se de robôs, metaverso e até mesmo entregas por drones. Entretanto, a NRF 2026 consolidou uma virada de chave silenciosa, mas de alto impacto: o hype morreu. Como destacou David Lawrence na abertura do evento: “Se não funcionou, aprendemos. Mas, ficar parado não era uma opção”.

Podemos afirmar que entramos oficialmente na era da execução. E, nesse novo cenário que se consolida, três pilares surgem como divisores de águas entre as empresas do setor que apenas sobrevivem e as que lideram.

São eles:

#1 A IA saiu da vitrine. Se em 2025 a Inteligência Artificial era uma promessa abstrata, em 2026 é algo puramente pragmático. O mercado não se interessa mais em saber o que a IA pode fazer, mas o que ela está entregando em casos reais de uso, como: otimização logística, redução drástica de rupturas de estoque e, principalmente, a IA Conversacional. Com o avanço do protocolo UCP (Universal Commerce Protocol), o consumidor está migrando sua preferência para assistentes inteligentes. Desta forma, se o dado do produto não for legível por uma máquina, a marca poderá deixar de existir para esse novo consumidor.

#2 A Reforma Tributária como catalisadora de eficiência. No Brasil, podemos afirmar que o motor de inovação veio direto de Brasília. A transição para o novo modelo tributário se tornou o teste definitivo para o varejo. Aqueles que ainda operam com dados fragmentados ou sistemas legados, certamente, sofrerão com a complexidade fiscal. Nesse cenário, o software de gestão como, por exemplo, o ERP deixou de ser uma ferramenta de suporte para se tornar o “escudo” para garantir a margem de lucro. Afinal, organizar dados e garantir o compliance em tempo real não se restringe apenas à burocracia, mas trata-se de estratégia competitiva.

#3 Consumo em “K” e a valorização humana. O cenário macroeconômico desenhou uma curva em “K”, na qual, de um lado, há o consumo impulsionado pela valorização de ativos e busca por experiências positivas; do outro, existe a constante luta pela eficiência no varejo. No meio desse fogo cruzado, nosso país tem uma “arma secreta”: o acolhimento. Desta forma, a grande lição para 2026 é que a tecnologia deve ser “invisível” para servir e empoderar o humano. Na prática, a IA deve dar munição para que o vendedor conheça o cliente tão bem quanto o algoritmo, mas com a personalização que só o atendimento presencial oferece.

Em 2026, o varejo deve ser pautado em dados com propósito. Ou seja, não basta digitalizar as operações em nuvem; é necessário ser autônomo. Da mesma forma, não basta apenas ter IA; é preciso ter margem. Até porque, na prática, o sucesso pertence às empresas que já entenderam que a inovação tecnológica só tem sentido quando traduzida em eficiência operacional e conexão humana real.

Como sinalizado por Lawrence, o hype acabou. Essa afirmação ganha ainda mais força ao olharmos a projeção do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) de que, até março, o setor tenha uma alta de 6,3% nas vendas no país. Mesmo em meio às sazonalidades, é importante enfatizar que o setor não está buscando mais promessas, mas a execução. Quanto a isso, a pergunta que deve ser feita não é sobre qual tecnologia comprar, mas o quão rápido é possível executá-la para proteger o negócio.

*Tailan Oliveira é CRO da ALFA a única consultoria SAP com expertise no varejo e que mais cresce no Middle Market nos últimos 6 anos. Com mais de 180 clientes ativos no Brasil e no exterior, uma equipe de 150 especialistas e 38 prêmios de excelência da SAP, a empresa se consolidou como parceira estratégica para organizações em expansão.

da redação com informações da InformaMidia

ARTIGO - Agenda da jornada de trabalho deve caminhar junto com produtividade e competitividade

worldfashion • 19/02/26, 10:22

Por Fernando Valente Pimentel*

O debate sobre a redução da jornada, que voltou à agenda nacional, merece ser tratado com a seriedade e a profundidade que um tema dessa magnitude exige. Trata-se de uma discussão importante que envolve qualidade de vida, saúde e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. No entanto, seus impactos ultrapassam a esfera social, pois alcançam diretamente a produtividade, a competitividade das empresas, a geração de empregos formais e o futuro do desenvolvimento econômico do País.

É importante lembrar que o Brasil não parte de um cenário de cargas horárias excessivamente elevadas. Dados recentes indicam que a jornada média efetivamente trabalhada situa-se pouco acima de 39 horas semanais, enquanto na indústria a média gira em torno de 40,2 horas. Ou seja, já existe, na prática, um nível significativo de acomodação decorrente de negociações coletivas, arranjos setoriais e organização produtiva das empresas.

Essa realidade reforça um ponto central: a diversidade econômica e produtiva brasileira torna inadequadas soluções uniformes e rígidas. Setores com operação contínua, forte sazonalidade ou elevada competição internacional, como a indústria têxtil e de confecção, apresentam dinâmicas distintas de atividades predominantemente administrativas ou de serviços. O mesmo se aplica às diferenças regionais, que refletem realidades econômicas, estruturais e sociais variadas.

Por essa razão, o melhor caminho para eventuais ajustes na jornada de trabalho não é a imposição legal uniforme, mas sim a negociação coletiva e os acordos entre trabalhadores e empregadores. Esse instrumento permite acomodar especificidades setoriais e regionais, preservar empregos e garantir soluções equilibradas entre produtividade, competitividade e bem-estar dos trabalhadores. A experiência brasileira demonstra que, quando há espaço para negociação, surgem soluções criativas e sustentáveis.

Outro aspecto essencial é reconhecer que reduções sustentáveis da jornada de trabalho, observadas em economias avançadas, ocorreram em contextos de aumento de produtividade, modernização tecnológica e reorganização dos processos produtivos. Quando a redução ocorre sem ganhos correspondentes de eficiência, o resultado tende a ser o aumento do custo por unidade produzida, perda de competitividade, informalidade e retração do emprego formal.

Nesse contexto, causa preocupação que propostas de redução da carga semanal de trabalho e extinção do regime 6×1 avancem sem que se inclua, na mesma medida, a discussão sobre a mitigação do “Custo Brasil” e dos encargos que incidem sobre o emprego formal. Os ônus do trabalho no País permanecem elevado quando considerados tributos, encargos sociais, energia e custos logísticos e do capital. Alterações que elevem o valor unitário da produção sem enfrentar esses fatores estruturais tendem a penalizar a indústria, estimular a informalidade e ampliar a substituição por importados.

Além disso, uma discussão com impactos estruturais sobre o custo do trabalho, a organização produtiva e a competitividade nacional não deve ser conduzida de maneira açodada, especialmente em períodos eleitorais. Temas dessa relevância exigem análise técnica aprofundada, diálogo amplo com os setores produtivos e avaliação criteriosa de seus efeitos sobre crescimento econômico, inflação, investimento e geração de empregos de qualidade.

O Brasil precisa avançar no seu desenvolvimento e, com isso, proporcionar maior bem-estar à sociedade. Mas, esse avanço, para ser sustentável, deve caminhar junto com produtividade, inovação e competitividade. A negociação coletiva, o respeito às diferenças setoriais e regionais e a construção gradual de soluções efetivas representam o caminho mais seguro para equilibrar esses objetivos.

Tratar esse tema com responsabilidade é garantir que o País avance socialmente sem comprometer sua capacidade de produzir, competir e gerar oportunidades para milhões de brasileiros.

*Fernando Valente Pimentel é o diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

ARTIGO - Geopolítica, tecnologia e a agenda inadiável para o setor têxtil e de confecção brasileiro

worldfashion • 05/02/26, 10:08

Por Fernando Valente Pimentel*

O mundo caminha para 2030 sob uma lógica muito diferente daquela que predominou nas últimas décadas. A globalização, baseada exclusivamente em eficiência e baixo custo, vem sendo substituída por um ambiente marcado por tensões geopolíticas, políticas industriais nacionais e competição tecnológica. Nesse novo cenário, o futuro dos setores produtivos será definido não só por preço fundamentalmente, mas também por resiliência, tecnologia e posicionamento estratégico.

Relatório recente do World Economic Forum aponta que a economia global será moldada pela interação entre geoeconomia — isto é, o impacto da política e da geopolítica sobre o comércio — e tecnologia, com destaque para a digitalização e a inteligência artificial. Não existe um único futuro possível, mas diferentes cenários que variam por país e por setor. Para o setor têxtil e de confecção brasileiro, essa transformação traz desafios relevantes, mas também uma janela estratégica rara.

Do lado dos desafios, a fragmentação do comércio internacional tende a se intensificar. Barreiras técnicas, exigências ambientais, regras digitais e políticas industriais ganham peso crescente. O setor têxtil e de confecção brasileiro, que já convive com um elevado custo estrutural de produção, enfrenta concorrência de países que operam sob regras trabalhistas, ambientais, previdenciárias e financeiras muito menos exigentes. O problema central não é a competição, mas a falta de isonomia competitiva.

É nesse ponto que se impõe uma agenda doméstica clara. Não haverá competitividade sustentável sem redução efetiva do Custo Brasil e melhoria do ambiente de negócios. Isso passa por uma reforma administrativa que aumente a eficiência do Estado, reduza desperdícios e libere recursos para investimento, bem como por uma nova rodada de ajustes na previdência, capaz de garantir previsibilidade fiscal e reduzir pressões estruturais sobre a economia.

A competitividade industrial também exige redução do custo do trabalho formal, hoje excessivamente onerado por encargos e insegurança jurídica. Em um país que precisa gerar empregos de qualidade e combater a informalidade, tornar o trabalho formal mais acessível é condição indispensável para o crescimento sustentado.

Outro vetor crítico é o combate ao comércio ilegal e à concorrência desleal, que distorcem o mercado, destroem empregos e penalizam empresas que cumprem a legislação. A defesa da legalidade e da concorrência justa não é protecionismo, é pré-requisito para um mercado saudável.

Some-se a isso a necessidade de juros em padrão internacional. Taxas de juros reais persistentemente elevadas encarecem investimentos e inibem inovação. Sem um custo de capital compatível com o resto do mundo, falar em produtividade torna-se exercício retórico.

No plano externo, é igualmente fundamental fortalecer os instrumentos de legítima defesa comercial, garantindo que práticas desleais sejam enfrentadas com rapidez e rigor, em linha com as regras internacionais. Defender a indústria nacional de dumping e subsídios ilegais não significa fechar a economia, mas assegurar concorrência equilibrada.

Ao mesmo tempo, a tecnologia deixa de ser opcional. Inteligência artificial, automação e análise de dados já impactam ganhos de produtividade, gestão de estoques, eficiência energética e leitura de demanda. Empresas que não avançarem nessa agenda perderão espaço, inclusive no mercado interno. O maior risco hoje não é errar ao investir em tecnologia, mas não investir.

Há, contudo, uma dimensão positiva nesse novo contexto. A regionalização das cadeias produtivas, o nearshoring, favorece países com mercado interno relevante, base industrial diversificada e capacidade de atender padrões ambientais e sociais mais rigorosos. O Brasil reúne esses atributos.

Além disso, o país dispõe de uma das poucas cadeias têxteis completas do mundo, com produção relevante de fibras naturais, bem como de algumas fibras sintéticas importantes para o setor, o que amplia significativamente o seu potencial de atração de novos investimentos nacionais e internacionais. Essa diversidade confere flexibilidade produtiva, capacidade de inovação e maior aderência às exigências de mercados cada vez mais segmentados e regulados.

A sustentabilidade, por sua vez, deixa de ser apenas discurso reputacional e passa a ser fator econômico concreto. Circularidade, rastreabilidade e descarbonização tornam-se exigências de mercado e critérios de acesso a financiamento. Nesse campo, o setor têxtil brasileiro conta com ativos importantes, como uma cadeia produtiva estruturada e uma das agriculturas de algodão mais sustentáveis do mundo capazes de gerar vantagem competitiva real.

Nesse contexto, a conclusão de acordos comerciais, em especial entre Mercosul e União Europeia, assume papel estratégico. A ampliação do acesso a mercados, com regras claras e previsíveis, fortalece a integração do Brasil às cadeias globais de maior valor agregado e amplia o retorno de investimentos em tecnologia, sustentabilidade e produtividade.

O futuro do setor têxtil e de confecção não está dado. Ele dependerá das escolhas feitas agora. Investir em tecnologia, elevar a produtividade, qualificar pessoas e, sobretudo, avançar em reformas estruturais que reduzam o Custo Brasil e ampliem a inserção internacional do país são condições indispensáveis para que o setor não apenas sobreviva, mas se fortaleça.

Num mundo mais fragmentado e tecnológico, a indústria têxtil e de confecção brasileira tem, se tiver os elementos adequados e um ambiente concorrencial isonômico, plena condição se consolidar como um ativo ainda mais estratégico para o desenvolvimento econômico e social do país.

*Fernando Valente Pimentel é o diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

ARTIGO - Câmbio valorizado, indústria pressionada: um alerta em meio ao rearranjo global

worldfashion • 30/01/26, 14:22

Por Fernando Valente Pimentel*

O Brasil volta a conviver com um ciclo de apreciação cambial. Em pouco mais de um ano, o real saiu de patamares superiores a R$ 6,00 por dólar, no final de 2024, para níveis próximos de R$ 5,20. Há, inclusive, análises econométricas que sugerem que o valor “de equilíbrio” da moeda brasileira estaria mais próximo de R$ 4,50 do que da cotação atual.

Esse movimento não é isolado nem exclusivamente doméstico. Reflete mudanças profundas no cenário político e econômico internacional, com realocação de portfólios financeiros em busca de diversificação e retorno. Quando esses fluxos chegam a economias com mercados financeiros relativamente menores, como a brasileira, os efeitos sobre o câmbio tendem a ser amplificados.

Do ponto de vista macroeconômico, um real mais valorizado proporciona benefícios evidentes no curto prazo, especialmente no controle da inflação e na moderação dos preços de bens importados. O problema surge quando esse movimento ocorre em um país que ainda carrega elevados desequilíbrios estruturais e cuja produção manufatureira permanece exposta a um conjunto severo de custos sistêmicos. A indústria brasileira e, de maneira ainda mais sensível, a têxtil e de confecção, encontra-se entre os setores mais vulneráveis a uma valorização cambial não acompanhada de ganhos consistentes de produtividade.

Diferentemente de economias concorrentes, o Brasil combina uma carga tributária elevada e cumulativa, longos períodos de juros altos, custos logísticos e energéticos superiores à média internacional e um ambiente regulatório complexo e pouco previsível. Somam-se a esses fatores propostas que tendem a elevar ainda mais o custo da produção, como a redução de jornadas e turnos de trabalho, sem contrapartidas claras em eficiência.

Esse quadro agrava-se quando observamos o cenário internacional. A China, maior exportadora mundial de bens manufaturados, não tem experimentado um processo equivalente de apreciação cambial. Ao contrário, mantém sua competitividade reforçada por políticas industriais agressivas, subsídios, incentivos financeiros e uma capacidade produtiva excedente que vem sendo direcionada a mercados de todo o mundo. O resultado é uma pressão adicional sobre indústrias locais em países que, como o Brasil, já enfrentam dificuldades estruturais.

Nosso país já viveu esse filme em passado não tão distante, com efeitos particularmente perversos no setor têxtil e de confecção: perda de competitividade, fechamento de fábricas, desestruturação de cadeias produtivas e migração de investimentos. Hoje, começam a se repetir sinais preocupantes, como o movimento de empresas brasileiras do setor se instalando no Paraguai para atender, de modo prioritário, o próprio mercado brasileiro. Não vão para lá por vantagens extraordinárias do país vizinho, mas pela busca de condições mínimas de competitividade que deixaram de encontrar no Brasil.

Iniciativas como a Nova Indústria Brasil (NIB), que contam com o apoio do setor produtivo, são importantes e caminham na direção correta ao reconhecerem a relevância do setor para o desenvolvimento econômico, tecnológico e social. No entanto, políticas públicas não operam no vácuo. Quando fatores macroeconômicos como câmbio excessivamente valorizado, juros elevados e custos sistêmicos persistentes atuam de maneira contrária, a capacidade de reação das empresas fica severamente limitada.

O risco é claro: uma apreciação cambial prolongada, sem avanços rápidos e concretos na agenda de produtividade e na redução do “Custo Brasil”, aumenta a vulnerabilidade da indústria nacional justamente em um momento de rearranjo das cadeias globais de produção e comércio. É uma conjuntura na qual muitos países estão reforçando suas bases industriais e não as enfraquecendo.

Fortalecer e reindustrializar o Brasil exige coerência entre as políticas macroeconômica e industrial e o ambiente de negócios. Um câmbio valorizado pode ser parte desse equilíbrio, mas jamais o seu eixo central. Sem enfrentar os entraves estruturais que penalizam quem produz, continuaremos estimulando, ainda que involuntariamente, a substituição da produção nacional por importações e a saída de investimentos produtivos. E esse é um custo que nossa economia não pode mais se permitir.

*Fernando Valente Pimentel é o diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).