ARTIGO - Da passarela às ruas: como a moda revela a história de um país?

worldfashion • 28/09/26, 10:42

Por Cristina Seixas*

Já dizia o escritor francês Anatole France (1844-1924): “Se eu pudesse escolher apenas um livro entre as publicações impressas cem anos após a minha morte, sabe por qual optaria? Eu escolheria simplesmente uma revista de moda, na qual eu poderia ver como as mulheres estarão vestidas um século após minha partida. E estas roupas me falariam mais sobre a humanidade futura do que filósofos, romancistas, profetas e intelectuais”.

Moda como símbolo de comunicação

O processo de criação na moda passa por transformações, muitas vezes por influência do contexto cultural, histórico e ambiental, cujos valores e significados se revelam na interpretação de sua realidade. Assim, é possível definir a moda como a expressão do momento. Existem determinadas características de estilo que sobressaem e expressam manifestações culturais, tornando a moda um símbolo de comunicação de massa, cujas formas, cores e texturas “contam” o momento histórico social de um país.

Vejamos por exemplo a moda feminina das décadas de 1940 e 1950 na Europa, mais especificamente na França, onde pode-se notar claramente o discurso de cada uma, inserida em seu contexto. 1950 reflete a reação à rigidez da estrutura do vestuário feminino dos anos 1940 e as grandes limitações à moda parisiense, criada sob forte influência das linhas militares e do vestuário masculino, com poucas cores, sem ornamentações, ombros armados e profusão de bolsos e de botões. As saias encurtaram, devido à economia de tecido, e os looks eram complementados por sapatos abotinados e sandálias com plataforma de cortiça. Era o reflexo do rigor das leis protecionistas, que determinavam até a metragem do tecido a ser utilizada. Os países envolvidos no conflito conviveram com o sentimento de despojamento e de simplicidade.

Com o fim da guerra, mais precisamente em 1947, aconteceu uma grande reviravolta no mundo fashion, quando a Dior apresentou sua primeira coleção de alta costura, a Ligne Corolle - rebatizada de New Look por Carmel Snow, pela editora de moda da revista Harper’s Bazaar - com saias amplas de cintura fina e corpetes estruturados. Os modelos chegavam a gastar vinte metros ou mais de tecido para a roda da saia, a exemplo do modelo Dioríssimo, complementados por sapatos altos de salto “agulha” e enormes chapéus. Era uma nova silhueta, em que a moda expressava feminilidade e elegância e que, em contraponto à fase anterior, exibia o reflorescimento da indústria têxtil e das pequenas empresas de acessórios.

Linguagem da moda

A narrativa fashion é um conjunto de signos que envolve do conceito à construção estética e exibe um discurso implícito de um momento, influenciado, por exemplo, por um contexto social, como o comportamento de consumo, as crises ou novos movimentos sociais, e que se reflete no discurso visual.

Por exemplo, um desfile pós-pandemia pode exibir conforto e liberdade, por meio de formas e de tecidos, com a silhueta mais ampla e a modelagem mais fluida. As formas, os materiais e as cores dos modelos podem expressar e/ou questionar padrões corporais e estéticos, tornando-se o espelho de seu tempo.

Paris, hoje

Em uma rápida análise da moda em Paris, hoje, nota-se a valorização do corpo, unindo simplicidade visual e respeito à silhueta, com conforto e movimento natural, e os elementos que se destacam são a cintura marcada (uso do peplum), texturas ricas, como o couro, em peças principais do look, e os bordados delicados em substituição às estampas.

Realça o “feito à mão”, com técnicas artesanais, em contraponto ao consumo rápido anterior. A moda busca menos “choque” visual e mais pureza nas formas, definidas por modelagens e tecidos que dão o tom natural ao caminhar. Percebe-se o cansaço aos excessos, com a busca de uma estética mais limpa, mais natural, por meio de looks mais sóbrios e duradouros, contrapondo a prática do descarte. Enfim, a moda valoriza o trabalho artesanal e a origem das peças e sinaliza um retorno ao natural e ao chique.

Futuro sustentável

Uma medida essencial para enfrentar esse cenário seria incentivar o slow fashion, com roupas de melhor qualidade e maior vida útil, desenvolvidas para proporcionar conforto e bem-estar. Também é necessário promover e viabilizar peças recicláveis, eliminar substâncias tóxicas da fabricação de tecidos, adotar corantes naturais e implementar outras práticas que permitam continuar criando sem deixar de priorizar a preservação e, idealmente, a recuperação ambiental.

*Cristina Seixas: jornalista, tradutora, produtora de eventos de moda, estilista, escritora e mestre em Design pela PUC-Rio. Com mais de 40 anos de experiência, idealizou desfiles, produziu eventos em instituições como o Museu Histórico Nacional, além de ter sido professora do Curso de Bacharelado em Design – Habilitação Moda e de pós-graduação em Design de Moda e Acessórios de Moda do SENAI CETIQT, bem como lecionou na PUC-Rio, na UERJ e na UCAM. Participou da tradução de livros como “História da cozinha e da gastronomia francesa”, de Patrick Rambourg (Editora Cassará) e “Seu futuro nas linhas da mão”, de René Butler (Editora Record). Atuou na revisão de obras, entre as quais “Uma breve história do racismo”, de Jacques d’Adesky (Editora Cassará) e “Os sabores e os saberes de Danusia Barbara (Editora Cassará). Como escritora, publicou “Casa Canadá: a questão da cópia e da interpretação na produção de moda na década de 1950” (Editora Cassará, 2015), além de “Estética da moda, Styling & Produção”, este em parceria com a jornalista Lu Catoira (2021) e “Rabena Karib: jornada entre e o deserto e o mar” (2025), ambos pela Edições Cândido.